Por Rafaela Oliveira de Moura 01/12/2019
Preciso te contar como cheguei até aqui, a causa disso foi o primeiro caso que investiguei quando assumi na Delegacia de Detroit, Hunt, em meados de 1989, em meio a decadência de Detroit, que não só perdi meu emprego como também a minha reputação construída por anos.
Lembro muito bem do primeiro dia quando cheguei à delegacia de Hunt, como dizem “a primeira impressão é a que fica”, observei atentamente o espaço e as pessoas.
- No que posso ajudá-lo senhor? - Perguntou a recepcionista, distraidamente olhando para a tela do computador. Observei ao redor, um computador amarelo, antigo, um balcão já desgastado pelo tempo, as paredes cinzas ou sem reboco. Uma iluminação parcial, com algumas lâmpadas queimadas. E ao fundo do grande salão uma sala que deveria ser do responsável da delegacia. No salão, pessoas sentadas nas cadeiras de espera, adolescente algemado, a mãe ao lado cabisbaixa, e outros aguardando para serem entrevistados. - Senhor! -
repetiu a moça mais séria e ainda centrada em seus afazeres. - Sou Martin Back, o novo policial desta delegacia, preciso me apresentar ao responsável. - responde objetivamente. Então ela me levou até a sala do delegado-chefe, sob os olhares curiosos e desconfiados dos novos colegas, até que cheguei em frente à porta do chefe da delegacia, um homem alto, sério, levantou-se atrás da mesa estendeu sua mão para me cumprimentar, senti confiança na saudação, me apresentei, em seguida fomos conhecer a delegacia e ser apresentado aos demais colegas.
Fiquei encarregado inicialmente de revisar alguns casos e fazer rondas pelo bairro, estava apreensivo para iniciar o trabalho. Sabia como era difícil esse trabalho, pois envolvia muitas situações e pessoas, ainda mais em um lugar novo e em meio a pessoas desconhecidas, não sabia em quem podia confiar.
Iniciei o trabalho no dia seguinte, revendo documentos da delegacia e fazendo pesquisas dos casos mais recorrentes. Até que pude chegar nos casos mais recentes. Estava organizado na medida do possível, o trabalho era lento, e ainda eu precisava atender aos casos novos e fazer as rondas nas ruas. Acredito que o encarregado anterior a mim também deve ter passado pelas mesmas dificuldades que eu estava tendo em conhecer, organizar e atualizar. Cada dia era uma coisa nova, mas eu evitava tirar muitas dúvidas com o delegado pois percebia que o contato com ele era restrito e ele era bem reservado, quando chegava saudava rapidamente no coletivo, entrava em sua sala, tratava dos assuntos, saia e voltava sem comunicar com detalhes.
Certo dia no decorrer do meu trabalho encontrei uma lista com os casos e as datas, percebi que era como um sumário dos casos que haviam acontecido, na delegacia, ou dos casos que quiseram expor no sumário, pois como você bem sabe, há certas coisas que nem sempre são mostradas por completo. Confiava no documento conforme ia averiguando com os casos. No entanto, algo me incomodava naquele lugar, o olhar das pessoas umas para as outras e principalmente os burburinhos entre os mais chegados durante o momento do café. Nunca conseguia ouvir o que falavam, apenas percebia a troca de olhares e que havia algo estranho, cheguei até pensar que era a minha chegada naquele lugar. Mas algo que nunca ousaram perguntar foi como iniciei a trabalhar e na verdade eu também não saberia explicar com detalhes, apenas que fui transferido para suprir uma vaga porque o antigo policial havia morrido tragicamente.
Após algumas semanas de muito trabalho, muitos casos revistos, seguindo aquele sumário e dando continuidade, encontrei uma pasta em uma das gavetas do almoxarifado, a qual tinha por título “caso de Hunt”, quando peguei nas mãos chegou me dar calafrio, pois não lembrava de ter visto este caso antes, nem constava na lista e ninguém chegou a comentar sobre isso, muito menos o senhor Stanford. Na pasta continha apenas um endereço, placa de carro e um número de telefone, sem nomes, sem relatório do caso. Apenas um carimbo na pasta escrito “ENCERRADO”, o que despertou a minha curiosidade, pois era nítido que o caso estava incompleto e sem resolução.
Como eu ainda não estava próximo a ninguém, percebi que teria que averiguar sozinho este caso, como das outras vezes. Nos dias seguintes, discretamente, comecei a fazer perguntas sobre a história da delegacia, em momentos variados, pois não queria arriscar que descobrissem que eu estava revisando este caso ou falar algo que ainda podia ser desconhecido causando maiores problemas. Mas a vontade de desvendar este caso é maior do que qualquer medo e insegurança. Para isso precisava investigar para encontrar mais pistas. Até pensei em perguntar para o senhor Judge, mas tive receio pela falta de provas e informações sobre o caso e isso demonstrasse uma certa incapacidade da minha parte de apresentar algo vago.
Então iniciei pesquisando pelo que estava em minhas mãos, aquele endereço era um bairro mais afastado do centro, aproveitei uma das minhas rondas para ir até o local. Quando estava próximo percebi que os moradores olhavam com raiva para o carro policial, percebia que não era para mim pois quando elas viam que era um policial desconhecido abrandaram a feição e desviavam o olhar. Encontrei a casa, mas fiquei observando de longe, mas não vi nenhuma movimentação de que podia ter pessoas morando, o quintal estava com a grama alta, as janelas quebradas e as portas com madeiras que bloqueiam a entrada, muito estranho isso. Precisei descer e perguntar para um morador, que todo desconfiado me fitava de cima abaixo, ele falou apenas que aquela casa estava à venda a poucos meses e não sabia nada sobre a família.
Voltei para a delegacia, havia demorado mais que o normal, a recepcionista ficou me olhando como se eu tivesse cometido algo errado e me chamou, pensei que iria receber alguma advertência, mas ela me avisou que o delegado gostaria de conversar comigo imediatamente. Passei novamente por aquele corredor, lembrando meu primeiro dia, refletindo sobre o misterioso caso, a reação dos moradores, a casa abandonada, eu continuava na estaca zero. Olhei para a porta do Sr. Stanford, respirei fundo e entrei. Ele havia me chamado para saber se eu não tinha encontrado uma pasta sobre um caso que ele mesmo iria investigar, mas que ocasionalmente essa pasta estava junto com as demais. Na hora eu não sabia o que responder, pois não queria demonstrar que sabia que ela existia e muito menos que eu estava investigando. Respondi que ainda não o encontrei, então ele me pediu para trazer até ele quando eu a encontrasse. Me retirei da sala mais preocupado do que já estava. Pensando qual o interesse do delegado justamente nesta pasta, que está com poucas informações e já estava encerrada…
Tive que ter mais cautela e agir com mais rapidez, aquele endereço não havia me dado muitas respostas, retomei as informações que estavam na pasta, procurei pelo número da placa do carro, tomei uma surpresa por ver que era de um carro policial. Mas um carro que não estava mais na delegacia. E nem podia perguntar para ninguém sobre isso, pois alguém poderia contar para o delegado que eu estava fazendo perguntas estranhas. Decidi voltar para aquela casa para averiguar se teria alguma coisa que me ajudasse a resolver.
Novamente os olhares dos moradores me seguiam, dessa vez não falei com ninguém, desci, olhei a janela, os poucos móveis cobertos com um lençol, um retrato de uma família na parede e quando olhei para a porta, embaixo havia uma ponta de um papel amarelo, tentei puxar para fora e era um envelope. Peguei e fui para o carro, dentro do envelope tinha uma foto, era o Sr. Judge e mais um policial, naquela mesma rua, e atrás da foto havia um nome. Voltei para a delegacia, mas escondi a foto.
Perguntei para a recepcionista quem era Calvin Sanders, esse era o nome que estava atrás da foto, ela se assustou, desviou o olhar do computador, a pele dela ficou mais branca que o normal, e respondeu rispidamente que era um policial mas não trabalhava mais na delegacia. Levantou-se para pegar um café me deixando sozinho naquele balcão e com mais perguntas.
Voltei para a minha mesa e tentei associar os fatos. O endereço, a foto, o carro policial, a família no retrato; eu precisava conhecer o Calvin Sanders, por que não trabalhava mais ali e qual a relação dele com aquela casa abandonada.
Já não conseguia mais nem dormir, pois sentia que existia algo muito importante por trás dessa história, e por que o Sr. Judge tinha interesse em investigar o caso, sendo que ele conhecia o policial, esteve naquele bairro, comecei a pensar que ele tinha alguma relação com tudo isso.
No dia seguinte comecei a procurar por jornais daquela data que aparecia na foto, e para o meu espanto encontrei alguns e todos mostravam sobre a morte de um policial, e a data era anterior há algumas semanas do dia que comecei a trabalhar na delegacia. A partir de então começou a fazer sentido. Mas ainda faltava uma peça para esse quebra-cabeça ficar pronto.
O delegado soube que eu perguntei sobre o policial anterior, ele me chamou e perguntou sobre a pasta novamente e se eu conhecia o policial. Eu ainda não podia entregar a pasta, era a única prova que eu tinha de tudo que investiguei, e comentei que vi o nome em alguns documentos e gostaria de ter certeza que era um policial e se ainda estava atuando.
Depois daquele dia, o Sr. Stanford começou a ficar mais observador, a desconfiar de mim, e então o clima ficou mais pesado do que já era. E ainda faltava eu ver uma pista, ligar para o número de telefone. Pensei que pudesse ser de algum familiar, amigo, testemunha… Quando liguei uma senhora atendeu e disse que era da casa do Sr. Judge Stanford, para ter certeza pedi o endereço pois queria visitá-lo. Eu precisava ter certeza. Dessa vez não fui como policial e não queria tratar sobre esse assunto na delegacia.
Nos jornais daquele dia da morte do policial as informações se contradizem, uns falavam que houve troca de tiros no local, outros que o carro perdeu o controle e capotou, incendiando logo em seguida. Eu precisava encontrar quem era o responsável pela morte do policial Sanders.
Aguardei o delegado Stanford chegar em sua residência, quando ele desceu do carro o abordei, vi sua cara de susto, e precisei ir direto ao ponto. Contei que estava com a pasta do “caso de Hunt” segui as pistas, e todas elas me levavam a apenas um suspeito que seria o responsável pela morte de Calvin Sanders, inclusive tinha uma foto tirada no dia da morte do policial e que aparecia apenas os dois juntos perto da casa do policial, então a última pessoa que estava com ele, era o Sr. Judge.
Vi os olhos do delegado enfurecer, ele argumentou que o policial estava envolvido em corrupção e ajudava aos bandidos da região, e ele não tinha nem coragem de transferir para outro local. Naquele dia ele disse que precisava ir até a casa pegar um dinheiro para pagar algumas dívidas senão iria se complicar, como o Sr. Stanford estava junto com ele no carro e precisou ir junto. Mas já não aguentava aquela situação e nem a família dele. Decidiu fazer algo, quando estavam indo ao local que o policial Sanders precisava ir para entregar o dinheiro, o delegado atirou nele e no carro todo para simular troca de tiros e incendiou o carro. Voltou até a casa da família do policial, devolveu o dinheiro e os mandou fugir para o mais longe. “Na delegacia contei que tivemos um confronto com assaltantes e o policial Calvin foi atingido e faleceu no local. Mas ninguém sabe o que de fato aconteceu. Inclusive você.” Disse o Sr. Stanford em tom de ameaça.
Precisei entregar a pasta para o delegado, menos a foto, pois era algo que eu havia encontrado. E no outro dia quando cheguei ao trabalho, a recepcionista me levou diretamente para a sala do delegado, cheguei e vi dois policiais estaduais, e fui indiciado há alguns anos de prisão e perdi o título de policial, saí daquela sala algemado e um policial de cada lado, passando naquele corredor, dessa vez sem me importar com os olhares dos outros, pois percebia que todos tinham uma parcela de culpa, mas agora o meu olhar estava desejando justiça e sede da verdade.
Então vim parar nessa prisão, até provar que não há nada que me condene a ficar aqui, e que outra pessoa deveria estar no meu lugar, sim, o Sr. Judge Stanford, aquele assassino, deveria estar aqui.