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quarta-feira, 18 de junho de 2025

Entre Pedras e Silêncios

 

Um sonho ou uma revelação?

Uma noite sonhei que convidei um antigo amigo para dentro de casa, como quem esconde um segredo bonito — um desses que não cabe no olhar da minha mãe. Ele estava ali, sentado no sofá da sala, e eu sentia o coração acelerado, como se o errado fosse amar alguém que não se encaixa nas molduras da casa dos meus pais.

Minha mãe nunca gostou dele. Não por maldade, mas porque julgava pela embalagem. Pela aparência meio largada, talvez. Não viu o jeito como ele me ouvia, nem o cuidado que depositava nas palavras. Era como se o amor que ele me oferecia não tivesse credibilidade por não vir vestido de colarinho.

No sonho, eu queria estar com ele, mas também queria continuar sendo a filha boa. A que agrada, a que entende os limites impostos. Era como caminhar na corda bamba entre o desejo e a culpa.

Passeamos por algumas casas, almoçamos em mesas alheias, e ele ria com antigos amigos, como se reencontrasse pedaços de si mesmo que havia perdido. Mas havia um desconforto no ar. Ele percebia os olhares, o julgamento velado, como se não pertencesse àquele lugar. E eu também não sabia mais onde era o meu.

Quando ele foi embora, senti um vazio antigo me abraçar. Aquela saudade silenciosa de algo que quase foi, mas que o mundo — ou minha hesitação — não deixou ser.

Depois, o sonho mudou de cenário. Eu estava em um ônibus indo ao centro de uma cidade de pedra. Escadas, pontes, igrejas antigas… tudo cinza, tudo sólido. Havia algo espiritual ali, como se eu estivesse num santuário construído pelas dores de quem sobe e desce escadas na alma.

Mas a paz não durou. Veio o tiroteio. A polícia contra os traficantes. Eu e minha mãe nos escondemos. Não lembro se ela me protegia ou se era eu quem a puxava para um canto. O medo era real, como se o caos da cidade refletisse o caos de dentro.

Quando tudo cessou, voltamos para o ônibus. Não conversamos. Apenas seguimos. E isso me doeu.

Acordei com aquele gosto agridoce na garganta, típico dos sonhos que parecem mais memória do que fantasia.
Talvez eu esteja mesmo vivendo entre pedras e silêncios, tentando encontrar um lugar onde possa amar e ser livre, sem precisar pedir desculpas por isso.


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